você é bonita que nem cacho de banana. banana dá uma vez e morre. bananeira continua lá, fingindo-se de viva. é verdade que a fruta se vende aos montes. mas a fruta do pé é pouca. é toda.
demora uns horrores pra bananeira ficar vistosa. daquele jeito bonito murcho dela. as folhas largas. quando chove, a água escorrega devagar por elas e afofa a terra. a banana tem gosto de terra porque tudo a bananeira devolve à terra. depois os homens extirpam as bananeiras. as coitadas. os homens não sabem da tristeza que a bananeira carrega. eles sabem a tristeza das árvores de estação. caem as folhas e florescem os frutos doces, chegada a hora. os homens acham angústia na árvore sem fruto, e as acariciam e trepam nelas quando elas os deixam cair em terra e calçada. os homens não sabem de nada mais. tudo que não lhe é dado é extirpado. os homens assim fazem com as bananeiras. alguém as deixa vivas, porque as acha bonitas, ou porque sua decadência é o ouro da velhice. as folhas são bonitas, mas também são para fazer as telhas das casas. mas quem vive na cidade não as usa. as bananeiras, não as encontro por aí. as bananas, sim, as vendem soltas no mercado e na feira. um cacho de banana é roxo que nem a terra. tudo na bananeira se consome. ela sabe virar terra que terra será fruto. mas sobra-lhe a tristeza de ás vezes porvir. espera sempre um cacho que surgirá como um raio que caia duas vezes no mesmo lugar? como um sinal de deus ou uma poesia que velha os minutos da sua toada. você é bonita que nem cacho de banana ainda pendurado, balançando instável. dura a beleza de um ser que se fez, uma vez, completo. e que sabe-se finito. e eu que a olho, possuo a sorte e a verborragia desta beleza. a bananeira se sabe, mas não se olha. quem a olha sou eu. quem deseja seu cacho trêmulo sou eu. na hora de ser, as bananas posarão amarelas na minha fruteira. e me castigo com a imagem triste da bananeira solitária. sabendo-a menos porque a olho? que é a bananeira? olha-me também das suas folhas? elas são terra. eu tampouco sou terra. pela graça dos destinos, de terra e em terra nos olharemos. mas não há mais o falar se o fim é fundo e perene feito terra. é preciso lhe falar agora, antes de um fim abrupto. você é bonita e eu lhe quero.
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