segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

o trabalho é o calvário apêndice I

eu te disse muito antes disso tudo que eu só posso trabalhar com o coração. naquilo que a gente pode bota o sangue e defende no tribunal. porque só assim não é trabalho. 
o trabalho é um apêndice da vida, querido.
trabalha-se para esquecer depois 
e para poder ver novela.

o que eu faço por vocês tem que ser outra coisa. tem que ser capítulo e resenha.

domingo, 26 de janeiro de 2014

o trabalho é o calvário parte 1

era rechonchuda e os peitos também, abre as penas, eu disse, eram juntos, bonita. arfava. enfiei dois dedos. movi-os conforme dizia os caminhos da vulva. a vulva toda é um mapa-múndi.
é, sim.
visitei com a língua os países periféricos, danados, um pouco mais sujo, ocultos. mas não omissos. deles, saiu delas gritos. era agudo e perfeita melodia. um hino louvado de gemidos. descansei e enquanto descansava ela me retribuía.
não descansei.
seus peitos são duas coisinhas lindas, disse ela antes de afogar a cara neles e enquanto em mim se divertia, gozou mais uma vez. que mulher poderosa. ela dizia quando seus pézinhos começam a tremer eu já me molho toda, amo seu orgasmo.
sorri tímida, porém. ás vezes não gostava da obrigatoriedade do orgasmo. mas ela era toda quente e periférica, verdadeira caçadora da catarse absoluta. você sabe que isso não existe, não é meu anjo. ela enfiou meus dedos por entre as pernas e disse, mas é isso que é. adormeci não antes de olhar o reflexo da luz da lua nos lençóis um pouco estranha daquela definição de catarse absoluta.
sonhei a noite inteira que lhe enfiava os dedos eternamente, o tempo espiralava, as décadas passavam, meus cabelos ficavam brancos, os dedos talvez enrugados, e os dedos ali, dentro da vulva, entre o clitóris e a vagina, explorado o mundo todo, sabendo-se todos os segredos, e ela ali; em catarse permanente.
é, possível querida, a permanência de meus dedos no teu interior, a eterna catarse? perguntei-lhe no insosso café da manhã e ela achou graça e foi-se trabalhar. não será, disse eu aos meus dedos enrugados. o trabalho nos salvará da catarse permanente, sorri aliviada, enquanto a louça esfregava. graças a deus que os homens o inventaram.

pai

é muito difícil não gostar do próprio pai. por inúmeras questões isso desencadeia. não é possível explicar exatamente. penso que tenha a ver com a intimidade, a falta dela. e toda uma infância disso. o pai é um homem desconhecido, que tem que ser ver uma vez por semana. e que tem vícios, e tem toda a coisa do pai perfeito que vendem pra gente. e os pais das nossas amigas, que são trabalhadores e leais. é difícil se separar do pai antes da fase oral terminar. não se entende. mas se entende inconscientemente que aquele pai não serve pra nada, como homem. como marido, como pai. é difícil construir a dimensão do ser que o pai é. porque os pais são os pais, as mães também. os irmãos são diferentes, eu acho. mas eles vêem ao mundo com essa função: de responsável, cuidador, facilitador. eles ficam em blocos separados no sentir. o ser só acontece quando estamos mais velhos. mas uma infância deturpada constrói um ser igualmente deturpado. privado das suas funções primárias. mas o pai que é solitário e cheio de problemas e dramas, quer seu amor. não é possível amar. nem pelo ser, nem pela paternidade. e daí, não se saber o que faz. o pai quer que você o ame. você não sabe como fazer isso.